17 de outubro de 2008

20 biliões

As idiossincrasias deste país deveriam ser um caso de estudo. De acordo com algumas notícias que hoje li, Portugal conseguiu diminuir os níveis de pobreza, que são calculados, e isto eu não sabia, pelo rendimento médio de cada país. Por cá isto dá um valor de 366 euros, certamente acima do Burkina Faso, mas ainda não motivo de orgulho neste continente europeu.
Outra estatística, divulgada pelo INE, refere que o desemprego está a descer em Portugal, isto num momento em que a crise e as dificuldades parecem afectar cada vez mais pessoas. Aparentemente só existem cerca de 400 mil desempregados, por isso parece que não há motivo para preocupações.
Estes são indicadores positivos, diz o governo, e mostram que estamos no bom caminho. Claro que seria útil reflectir um pouco sobre isto e pensar em primeiro lugar se será legítimo avaliar a pobreza através de tão pobre registo. Esta estatística, como quase todas, é cega. Contabiliza 18% de pobres, aqueles que vivem com 366 euros ou menos. Já não se preocupa com os que ganham 367 euros ou com os «magnatas» que trabalham pelo salário mínimo e estes, sabemos todos, são bem mais do que os tais 2 milhões referidos neste estudo. Aqui ao lado em Espanha, com um custo de vida mais barato com o nosso, poucos seriam os que escapariam a esta horrenda estatística e isto seguindo a tal fórmula de cálculo.
A mentira do desemprego, e não hesito em chamar de mentirosa a esta estatística do INE, baseia-se em malabarismos bem orquestrados por quem tutela o Instituto do Emprego. Só quem está inscrito é considerado, quem está a fazer formação está fora da lista de desempregados, aqueles que são encaminhados para prestar serviços a instituições sob ameaça de perderem o subsídio não contam (e infelizmente só servem para colmatar faltas de pessoal, evitando a criação de um emprego de facto)... Muitos são os artifícios e assim se esconde um dos nossos maiores flagelos. Faz-se propaganda, muitos acreditam e pronto, todos nos sentimos um pouco melhores com a triste realidade em que vivemos.
Ora, neste país das maravilhas, e por coincidência ou não, foi hoje aprovado o cheque em branco de 20 biliões de euros aos bancos nacionais. Os mesmos que nos brindaram nos últimos anos com lucros fabulosos, distribuídos pelos administradores e accionistas, indiferentes aos salários de miséria que auferem os seus empregados e a maioria da população.
Gostaria de lembrar que nos últimos anos pediram-nos enormes sacrifícios. Que nos contentássemos com aumentos abaixo da inflação, com uma maior taxação de IVA e IRS, essencial para reequilibrar as contas públicas. O dinheiro escasseava, diziam-nos, e em nome do bem de todos devíamos aceitar as pensões ridículas, o aumento da idade da reforma e tudo o resto que nos impingiram.
O que era bom que explicassem era como é que num país onde não havia dinheiro para nada há poucos dias e onde se contesta inclusive os 400 milhões de euros do rendimento mínimo, se conseguiu subitamente garantir 20 mil milhões de euros. Eu sei que é o dinheiro de todos nós. 20 biliões. Para cobrir disparates e acrobacias de muitos gestores e financeiros.
É este o país em que vivemos. Não se disponibiliza um milhão de euros para superar o número miserável dos 366 euros do limiar de pobreza. Dizem que não podem fazer mais. Para salvar a banca arranja-se de um dia para o outro 20 biliões. Já há liquidez. Corta-se no subsídio de desemprego e não se incentiva a sua criação. E valha-nos Deus se contratamos mais funcionários púbicos. Mais vale manter os precários, custam menos e despachamo-nos deles mais rapidamente. 20 biliões para a banca. A tal dos off-shores e dos lucros escandalosos. 20 biliões. Pobrezinhos que estão em dificuldades. 20 biliões. Sou só eu que me sinto gozado?
Repeti diversas vezes o número 20 biliões propositadamente. É para ver se alguém repara que é de facto muito dinheiro. Muito que nunca existiu para ajudar quem precisa. Cerca de 9 milhões. 20 biliões para a banca.
20 biliões.

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